5.
Imaginou-se no deserto. Mas não. É só uma praia vazia, fora de época. Quase sem pessoas. Olhou o relógio. Dormiu meia hora misturado com a areia morna. Ainda estremunhado fez mais um esforço. "Estou no deserto". Mas não. "Estou no deserto".
Mas não. Os olhos e nariz, algemados pelo mar, arrastavam-no para a areia tatuada pelas gaivotas e para o cheiro a sal.
"Está na cara que hoje não é dia de inventar. Acho que nem sonhei".
Decidiu entregar-se, então, às coisas. "Tal como são". Olhou intensamente o desenho da pata de uma gaivota. Tão firme, que quase fixou apenas um grão de areia, logo indistinto entre milhares esculpidos.
De repente, percebeu que jamais, nunca mais, quase fixaria aquele grão de areia. Nunca... "Fazia-me falta aqui Deus para me ajudar a encontrá-lo. Sozinho, nem sou capaz de me ligar a um grão de areia".
A custo, levantou a cabeça. O mundo pareceu-lhe uma fotografia velha, já amarelecida. "É mesmo assim? Ou resta alguma luz da areia na retina?"
Bocejou. Os olhos turvaram-se.
"Mas quais coisas, tal como são, qual carapuça!"